Imagine-se acordando às seis da manhã com a Polícia Militar batendo à sua porta dando ordem de prisão ao seu filho de dezenove anos. Imagine se o projeto mais importante de sua vida de repente disparasse ladeira abaixo e todos apontassem você como o maior culpado deste projeto não ter dado certo? Esta foi a situação passada pelo empresário carioca, Ludovico Ramalho Bruno, pai do estudante de direito Rubens Arruda, uma simples “criança” que, junto com sua turminha de semelhantes, espancou Sirley Dias de Carvalho Pinto, 32, empregada doméstica, na semana passada. O motivo da atitude? Diversão. Estas “crianças” , como disse Ludovico dias depois, simplesmente bateram em um ser humano por pura diversão.
Saindo um pouco do caso de espancamento, imagine-se no lugar dele? Num momento como este é de se imaginar que aconteça uma reavaliação da própria vida e da forma como se criou o filho. O que terá faltado na criação dele? Infelizmente a reação vista foi totalmente diferente, o Sr. Ludovico simplesmente passou por cima de todas as “leis” do bom senso e declarou que seu filho e sua turma cometeram um simples deslize. Que por serem “crianças de bem, que trabalham estudam e têm endereço fixo não é justo mantê-los junto com bandidos”. Excelente declaração. Muito instrutiva, pois a partir de hoje todos que possuem emprego, endereço fixo e grau de escolaridade podem cometer pelo menos um crime hediondo, independendo de sua gravidade ou perversidade (pasmem!).
Infelizmente a lei brasileira acaba por atestar a declaração do Sr. Ludovico. Os “Pit Boys” criam este tipo de situação há muito tempo, o índio pataxó Galdino dos Santos foi vítima do mesmo tipo de pessoas há dez anos atrás. Um grupo de garotos, entre 16 e 22 anos de idade, ateou fogo no índio que dormia em uma calçada na cidade de Brasília; atualmente todos estão soltos e vivendo em total liberdade, sendo que o caso não foi nem considerado assassinato. A lei no Brasil possui brechas o bastante para absolver qualquer bandido, desde o maior assassino até um político corrupto.
O pai de Rubens Arruda também declarou que os pais não têm culpa nenhuma das atitudes dos seus filhos. Será que não? Quem seria então o responsável pela formação dos valores de alguém senão os pais? Os jovens justificaram o ato dizendo que confundiram a doméstica com uma prostituta; de onde será que vem este valor? Talvez da rua, talvez o garoto realmente tenha chegado à conclusão sozinho de que uma prostituta deve apanhar; mas e a idéia de que os problemas são resolvidos com violência? Será que esse valor não vem de casa?
Ser pai é muito mais do que dar emprego, estabilidade e escolaridade. A idéia de criar um filho, para muitos, é algo mecânico e vinculado a uma boa situação financeira, deixando de lado valores morais, noções de respeito e cuidados pessoais. O crime do Rio de Janeiro deve se tornar mais um dado estatístico dentro de pouco tempo, assim como vários outros crimes cometidos por “pit boys” e outros mais se sucederão por muito tempo até que os vários “Ludovicos” que continuam a existir repensem seu ponto de vista quanto à criação dos próprios filhos. Todos nós cometemos deslizes na juventude, mas um fato dessa proporção atesta uma juventude de vários deslizes permitidos.
Um bom pai nem sempre é o que banca uma escola particular por toda a nossa vida, e sim o que nos mostra valores imprescindíveis para a nossa vida. Pense como pai, pense no seu pai e reflita se o mais valioso é um gesto de carinho ou um simples presente de natal.
Thomaz Fernandes, Estudante de Jornalismo 1º Semestre - Unimep
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