Foto: Fabio Camolesi
“Respeitável público pagão”
O Teatro Mágico pede passagem
Talvez a “oitava ou nona” apresentação de um grupo na mesma cidade já não dê tanto prazer quanto nas primeiras nas primeiras vezes, talvez cantar as mesmas músicas todas as noites seja uma atividade um tanto tediosa. Bom, quem disse isto no mínimo não assistiu a uma apresentação da trupe “O teatro mágico”. Liderada por Fernando Anitelli, mais uma vez a trupe nos presenteou com um impecável espetáculo na última Sexta-feira 15/06, no teatro UNIMEP. Em duas sessões fascinantes a trupe desfilou todo o seu talento sobre o palco, fazendo várias evoluções e representações circenses, misturando ritmos e construindo formas.
Propondo ao público um jeito independente de fazer arte, é visível a todos o amor e a felicidade com que os integrantes da trupe fazem o espetáculo, tratando-o como um filho, uma obra única, como uma coisa mágica, como O Teatro Mágico deve ser tratado. No dia da apresentação, Fernando Anitelli concedeu uma entrevista ao jornal FOLHA CIDADE, e nos deu a chance de conhecer de perto os bastidores de um grupo fascinante que desponta para se tornar um dos melhores grupos artísticos da década.
Numa entrevista sincera, Anitelli fala de sua inspiração para criar o grupo, de suas opiniões sobre a indústria musical no Brasil, sobre outros grupos que igualmente fazem uma arte independente e claro, sobre o sucesso da trupe. E depois de uma tarde mágica, tiramos o chapéu e damos passagem para a louca trupe d'O Teatro Mágico” mostrar como se deve viver.
Folha Cidade: Desde o início, esta é a oitava vez que vocês vêm a Piracicaba...
Anitelli: Não sei se é a oitava ou a nona vez, agora estou com uma dúvida, mas já é quase dez, oito ou nove são quase dez (risos)...
F.C.: E tem algum significado para vocês tocarem em Piracicaba?
Anitelli: O motivo da trupe tocar aqui, é porque aqui a gente encontrou um público sedento por um projeto como este que envolva teatro, circo, música e poesia. Eu freqüentava muitos saraus, o Teatro Mágico é oriundo disso. Nesses saraus aparecia de tudo: violão, palhaço, circo, dança, e eu sinto que em Piracicaba as pessoas entendem que elas não são platéia, elas fazem parte da apresentação: é um público que participa, interagem e entendem que são uma extensão da trupe. Então Piracicaba se tornou um certo berço pra nós também, pois a gente vem aqui e é sempre bem recebido. É sempre difícil encontrar um público que respeite o artista, ainda mais quanto ao trabalho autoral. Aqui encontramos respeito e carinho. Isso é fantástico.
F.C.: A trupe está caminhando para o seu segundo trabalho. Tem alguma diferença quanto à mensagem que vocês queiram passar quanto ao primeiro trabalho?
Anitelli: A essência continua que é aquela coisa de agregar, somar, cada um trazer a pluralidade de si mesmo pra dentro do projeto. Na verdade, nesse segundo trabalho, as letras estão mais politizadas e a participação da galera nas composições e arranjos foi bem maior, pois a montagem do segundo cd está sendo feita sem tempo para ensaiar. Está sendo feito mais pelo entrosamento. Mas as letras estão mais politizadas, atuais, estão mais contemporâneas, falando sobre coisas pertinentes a nós mesmos. Então o segundo trabalho vai ter um carinho todo especial pra fazê-lo. Vai demorar um pouco para ser lançado, talvez só ano que vem mesmo. Estamos pensando em gravar um DVD com a trupe, pois o cd é diferente do que estamos apresentando atualmente e hoje temos uma outra galera. A trupe está mais amadurecida e registrar isso em vídeo é super importante. O segundo trabalho ficará mais pro ano que vem mesmo, até porque estaremos contando com participações de Arnaldo Antunes, Silvério Pessoa de Recife, o Bocato – trombonista, a Simone Soul de novo. Vamos convidar o pessoal e tratar o cd como se fosse um grande encontro de uma porção de gente com timbres diferentes, movimentos e cores. Essa "sopa" toda em busca de um resultado bacana.
F.C.: Vocês acreditam que a receptividade do público irá mudar em relação a ele?
Anitelli: Eu acho que não. A gente ao vivo já tem feito muito do que iremos lançar no segundo CD e muito destes trabalhos são gravados pelo público e reproduzido na Internet onde todo mundo já fica sabendo. Então, na verdade, é curioso, pois é como se não houvesse novidade alguma, é claro que vai ter suas novidades em textos e arranjos, mas o povo já está acompanhando essa transição porque o tempo todo nós liberamos as imagens na Internet, liberamos o povo para filmar e fotografar. A idéia é tornar a música livre nesse sentido mesmo, sem ter data para começar a poder ouvi-la, repassando-a para os amigos. Acredito que o segundo trabalho venha com essa maturidade, até porque não gostamos de ficar fazendo as mesmas coisas, ficar com uma sensação de incompleto. Você sempre quer se reciclar, se renovar, pelo menos aquele que tem uma relação de verdade com a arte. Alguns artistas, às vezes, viram cover de si mesmos e repetem as mesmas coisas achando que é uma fórmula. O Teatro Mágico não é uma fórmula, é uma forma de fazer. É assim que a gente se relaciona com esse projeto, então esse é o espírito.
F.C.: Em outras entrevistas, você diz que é favorável a pirataria do seu trabalho como uma forma de divulgação. Existem, no meio artístico, outros grupos que façam "eco" a essa opinião?
Anitelli: Sim! Tem um pessoal que está aparecendo agora e está seguindo essa idéia, e dos grandes, conheço alguns como o pessoal do Cordel (Cordel do Fogo Encantado) que liberam as músicas no site deles, assim como do Zeca Baleiro e do Chico César que liberam algumas músicas também. Mas só nós temos essa coisa de liberar tudo. Como por exemplo, no lançamento do nosso segundo CD as músicas estarão disponíveis no site no mesmo dia. Por isso que eu falo que essa pirataria é saudável, pois se você pegar CDs para revender, estará quebrando esta corrente fazendo o que todo mundo já faz. A novidade é não fazer isso, pois se você não tem cinco reais, pirateia e ouve o trabalho. Se essa corrente não for quebrada, as pessoas passam a compartilhar a arte e a cultura, sabendo do que o outro gosta. Vai agregando e somando.
F.C.: Qual o posicionamento do grupo em relação a parcerias com gravadoras e empresários?
Anitelli: Na verdade, esse assunto divide opiniões. Algumas pessoas acham que é melhor e outras preferem sem gravadora. Eu penso da seguinte maneira: quero que o Teatro Mágico seja uma coisa muito cuidada, seja discutida; eu não falo não para as coisas, mas por exemplo, quatro gravadoras multinacionais já vieram atrás pra conversar, pra comprar o projeto. A idéia seria fazer uma reunião para entender como poderíamos divulgar isso: se é pra distribuição, se eu vou me tornar funcionário de alguém, se terei que limitar minha composição, se só terei três minutos de música, se a gravadora vai liberar todas as minhas músicas ou se o CD chegará ao meu público a R$ 5,00. Será que a gravadora vai permitir que eu possa falar "pirateiem o trabalho se não tiverem dinheiro"? Ou permitir que eu não apareça vinculado a algum outro produto: chiclete, salgadinho, cerveja ou qualquer coisa que seja pra divulgar o produto e não o Teatro Mágico? Então isso são coisas que quero debater com o pessoal que esteja interessado em participar com a gente. Porque eu não digo não pra elas, mas se vamos fazer um projeto juntos vamos então participar, vamos agregar. Mas o que é que vai sair disso? Há um tempo atrás estávamos negociando com uma gravadora que disse: "Olha, vamos colocar vocês em alguns programas, talvez até na Globo. Fazemos alguns patrocínios em lojas e fica 23% de tudo". Aí eu pensei, "Que legal! Eles não pediram nem 25%, pediram os vinte e três" mas não; na verdade era 23% para a gente. Todo o trabalho que você faz pra ficar com 23% só. Isso não faz sentido. Então essa bandeira da independência é justamente por isso, eu quero cuidar daquilo que é meu, que é como um filho. Por exemplo, ontem me perguntaram se era só eu que gostava de dar entrevistas, e eu respondi que não. Que ele poderia perguntar pra quem ele quisesse mas quem participou da concepção desse projeto, da realização dele, onde ele começou. Ele não começou no dia do show, na primeira estréia ou na primeira gravação. Começou antes, começou com a batalha de juntar as moedas pra poder gravá-lo ou poder pesquisar em que estúdio seria. Então toda essa história eu quero cuidar, porque quando meu filho tiver reunião na escola, quero ir eu mesmo e não mandar meu tio no meu lugar. É a questão de cuidar da arte, porque senão fica tudo muito disperso devido à grande quantidade de informação, atualmente. Você liga a televisão é informação pra caramba, a Internet também.Vemos de tudo o tempo inteiro, então somos condicionados a acreditar em certos estereótipos que a tv nos passa de beleza, comportamento, postura, do que é certo e o que é errado. Então dentro desse mundão de coisas a Internet consegue sobreviver como um meio livre, pois podemos opinar nossas coisas ali, podemos escrever o que quisermos em nossas páginas, enfim, cuidamos das nossas coisas. É esse cuidado que eu quero ter com o trabalho todo, o tempo inteiro, então quem quiser participar vamos conversar. A questão é que sou é contra a falta de dignidade das gravadoras para com os artistas: pegar mais de 75% do trabalho da banda pra apenas distribuir o trabalho que ele fez. Se eu puder colocar na Internet e um cara lá no Japão conseguir baixar meu trabalho e montar um CD eu já acabei de cortar a função da gravadora. Agora como divulgar e fazer chegar até lá seria com mais inserções nas escolas, rádios livres, canais comunitários e na televisão, pastilhas com outros órgãos de imprensa em rádio e televisão. Tem que dar espaço pra isso, porque rádios e tvs estão todas contaminadas, pois agora o que se apresenta é só resultado de reuniões, formulações, ibope, grana... É tudo conchavo; se você quer colocar uma música no rádio ou tv tem que pagar como se fosse um anunciante, esses órgãos vivem de anúncios, ibope, números e resultados... Esse é o processo de capitalismo, você põe mais grana e tem mais espaço. Então você cria o artista; você põe a mulher trancada numa casa, o dia inteiro na televisão sai de lá artista, coloca o cara mergulhado numa banheira pegando sabonete explorando o corpo das outras mulheres, tá dando ibope não esta? Então isso vale mais...Vale mais do que uma palavra daquele senhor que faz uma musica lá no sertão, vale mais do que a expressão popular do interior de São Paulo, o "fandango" que está acabando, o caboclo... Tudo isso você consegue encontrar no nordeste uma produção cultural fantástica de expressão popular e aqui no sudeste está acabando, virando "Los Angeles", "Hollywood", e aí acaba. Se você não tomar cuidado a arte fica dispersa, o trabalho fica disperso e você se perde neste "teatro mágico" do cotidiano.
F.C.: De onde surgiu a idéia de agregar o figurino circense e as performances teatrais nas apresentações da trupe?
Anitelli: A idéia veio justamente de freqüentar saraus. Muita gente eu conheci nos saraus e muita coisa acontecia lá. Agora em relação ao circo, veio porque eu queria que na hora da apresentação cada um fosse um personagem comum, todo mundo fosse uma coisa só. O pessoal age em comum a isso, por exemplo, desde a comédia "Delaide", da estória do bobo da corte e do bufão. O palhaço sempre foi um personagem que vive por si só; ele é o espetáculo, ele é crítico, ele é da paz, é malandro. Isso traduz essa brasilidade nossa de diariamente fugir das mazelas com improviso. Então o palhaço é um ser esboço, por exemplo, se você pedir para um palhaço andar de bicicleta na corda bamba ele não sabe, mas vai dizer que sabe. Vai fazer, cair, mas irá fazer.Então ele é disposto; daí vem o lema "Os opostos se distraem, os dispostos se atraem". O palhaço traz esse mundo. O circo é isso. Por exemplo: o cara do trapézio tem o primeiro intervalo lá fora vendendo churros na porta. O outro que enfia a cabeça na boca do leão está vendendo pipoca depois. É uma coisa de família, coletiva, esse "juntamento" todo. Eu fico com esse prazer de passar esse projeto, com roupas de cigano, com artistas independentes que se juntam nesse projeto específico onde da pra se conjugar um verbo em comum.
F. C.: Sabendo-se que o Folha Cidade é um meio alternativo assim como o Teatro Mágico, qual a mensagem que você pode passar em relação ao TM?
Anitelli: O teatro mágico é circo teatro musica amplificação de um sarau e a possibilidade de trabalhar com a brincadeira misturando musica fazendo colagens de maracatu com hip-hop, violino, nilon, peso, piano, poesia, dança, acrobacias, trapézio, cor e artes plásticas. O que for, o que couber no universo. Então o Teatro Mágico também não é só essa apresentação. É o Teatro Mágico de todo dia, fazendo com que as pessoas possam se enxergar como personagens desse teatro e buscar os outros personagens que compõem cada um dentro desse espírito de se conhecer, de somar. É assim que eu traduzo o Teatro Mágico. Ele não é algo que se tem uma fórmula. Ele é esse movimento e essa postura.
Entrevista feita por Fabio, Luis, Talita e Thomaz, Corrigida por João e Maya.